A longa jornada de um cespiano da gema

30/06/2011 - A longa jornada de um cespiano da gema

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Engº José Walter Merlo

O engenheiro eletricista José Walter Merlo, formado pela Escola Politécnica da USP, turma de 1962, iniciava sua carreira na Companhia Hidroelétrica do Rio Pardo (Cherp), quando a empresa veio a se integrar à Cesp, no dia 5 de dezembro de 1966. Na ocasião a Cesp era denominada Centrais Elétricas de São Paulo. Posteriormente continou sob a mesma sigla, porém por volta de 1978 passou a ser chamada Companhia Energética de São Paulo, para atuar em outros segmentos de energia e não só energia elétrica. Walter Merlo fez toda a sua carreira dentro da Cesp, chegando a vice-presidente executivo e presidente em exercício. Ao ser constituída a Cesp, em 1966, foi convidado para assumir o Setor de Montagens Eletromecânicas de toda a companhia. Aí já estavam incluídas as empresas que vieram a se fundir, juntamente com a Cherp, formando um conglomerado, a saber: Usinas Elétricas do Paranapanema (Uselpa), Centrais Elétricas de Urubupungá – Jupiá e Ilha Solteira (Celusa), Companhia de Melhoramento do Paraíba, do Paraibuna e Jaguari (Comepa), e a Bandeirante Eletricidade (Belsa), num total de cinco grandes empresas.

Na verdade, segundo Merlo, foram 11 empresas, já que uma parte delas era de segunda geração. Ou seja, já eram controladas por outras maiores. “Elas foram fundidas devido a razões técnicas, até políticas, para se fortalecer numa única empresa do Estado. A capacidade instalada era então de 540 MW. Em 1995, quando começaram as privatizações, isso estava em 12 000 MW.” Essa enorme transformação teve suas raízes na década de 1950, período em que o Estado de São Paulo, incluindo a capital, apresentava sérios problemas de abastecimento de energia. O sistema era alimentado basicamente pela Light e pela Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL) que não tinham condições de atender a demanda impulsionada pela crescente industrialização.

Era preciso desenhar um novo sistema, o que teve início no governo do professor Lucas Nogueira Garcez, de 1950 a 1954. Foi criado então o Programa de Eletrificação do Estado de São Paulo e instituída uma taxa de contribuição dos consumidores. “Esse programa, que ultrapassou o governo Garcez, prosseguindo pelos outros que o sucederam, consistia em fazer usinas hidrelétricas no Estado, a começar pelas do Rio Paranapanema, já em obras, como a de Salto Grande, que começou a ser construída inclusive para eletrificar os trilhos da antiga Sorocabana, e outras na divisa com o Paraná”. Segundo Merlo essas usinas foram depois absorvidas pela Uselpa, que incluía as de Salto Grande, Jurumirim, Chavantes e depois Capivara, até mais abaixo, com a usina de Rosana. “Sendo que paralelamente se desenvolvia mais uma área de atuação com outras empresas anexadas como a própria Cherp, voltada para as obras do Rio Pardo – Limoeiro, Euclides da Cunha e Graminha, já em construção.”

Também as obras do Vale do Tietê foram incorporadas. Segundo Merlo, o aproveitamento hidrelétrico – ou se se preferir, hidráulico – do Rio Tietê foi concebido mais ou menos nos moldes do Vale do Tennessee, nos Estados Unidos, com uso múltiplo, mediante a construção de eclusas, piscicultura etc.
A partir de então a Cesp deu continuidade a esse programa, concluindo o primeiro trecho da Hidrovia do Tietê com a inauguração de eclusas como as de Barra Bonita, Bariri e Ibitinga, permitindo navegação. Seguiu fazendo outras usinas, entre elas as de Promissão, Nova Avanhandava e também a de Três Irmãos e o canal de Pereira Barreto, o que permite a navegação do Tietê até o Rio Paraná. Tudo isso resulta da filosofia de uma empresa que não visava somente investimento em geração de energia, explica Merlo. “A Cesp sempre gerou desenvolvimento. Onde ela chegava era para levar progresso: estradas, novas pontes, navegação e aeroportos como os de Porto Primavera e de Jupiá, que comportavam até aterrissagem de Boeing, assim como o de Água Vermelha, este atualmente desativado. No de Ilha Solteira desciam jatinhos. O de Jupiá, mantido, chegou a ter linha regular da Vasp na época da construção de Ilha Solteira.”

Todos construídos dentro dos melhores padrões, a exemplo dos canteiros de obra, diz Merlo. “Nós fizemos, em Ilha Solteira, um acampamento com conceito de cidade – com cinema, teatro, clubes e um ótimo hospital. Na ocasião nos criticaram. Mas nunca tivemos problemas com greves, paradas ou motins. Mesmo porque, como terminar uma obra em tempo recorde de quatro anos, trabalhando dia e noite? Só se parava no Natal e Finados. Em 1973 já estava operando. O fato é que Ilha Solteira recebeu um patrimônio, um investimento que ficou para o país.” Merlo valoriza a oportunidade de ter integrado uma organização modelo onde todos aprenderam muito, “uma verdadeira escola de engenharia, dentro de sua filosofia do melhor possível, não só na parte de engenharia mas também na de pessoal – armadores, carpinteiros, tecnólogos. Uma gente excelentemente treinada. Para se ter uma ideia, Ilha Solteira, no pico da sua construção, chegou a ter 18 000 trabalhadores”. Merlo foi, inclusive, um dos responsáveis pela montagem do laboratório eletromecânico da Cesp, que dispunha também de um dos melhores laboratórios hidrelétricos do mundo, e uma escola de soldadores. “Contávamos também com o IPT, que sempre foi um grande parceiro da Cesp.”

De acordo com essa visão, continua Walter Merlo, alcançava-se aprendizado, gente dedicada e uma força de vontade muito grande. E, para saber se estava no rumo certo, a Cesp recorria a consultores internacionais, em busca do que havia de melhor. “Essa era a conduta – fazer com gente nossa, sob consultoria internacional, adotando como norma básica não deixar acontecer o erro. Na verdade, nós engenheiros da Cesp, das empreiteiras e dos fornecedores, formávamos uma só unidade. E a Cesp, quase que uma paixão, reuniu trabalhadores de todos os rincões do Brasil, para vencer grandes desafios.” Ele destaca ainda que a engenharia brasileira evoluiu muito naquele período, quando foram criadas empresas como a Themag, Hidroservice, Promon e outras, estendendo essa abrangência a toda uma cadeia produtiva. Engenheiro da Cesp de 1963 a 1988, quando se aposentou, Walter Merlo se licenciou no período de 1975 a 1979, a convite do então prefeito Olavo Setúbal, para assumir a Diretoria de Obras da Emurb. A missão era fazer grandes obras para a Prefeitura de São Paulo. No final de 1979 retorna à Cesp como vice-presidente executivo.

Permanece nessa função até 1983, ocasião em que participou da compra da Light em São Paulo, que veio a constituir a Eletropaulo. Ainda em 1982, nesse período da formação da Eletropaulo – cujo primeiro presidente foi o professor Lucas Nogueira Garcez, que faleceu no exercício da função, um ano depois de tomar posse –, Merlo assume a presidência da empresa, que dirigiu de maio de 1982 a março de 1983. Ao deixar a Eletropaulo, por indicação do professor Celestino Rodrigues, foi convidado para participar de um grupo de trabalho do Distrito Federal, encarregado de elaborar um programa de mobilização energética, em meio à crise do petróleo. Ficou algum tempo nessa função, quando foi convidado para a presidência da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), função que exerceu por 22 meses, até março de 1985, final do governo do general João Baptista Figueiredo. Saiu para voltar à sua área, que era a Cesp. Foi também assessor da vice-presidência executiva da Comgás, e, mais uma vez, da diretoria financeira da Cesp, quando se aposentou. Hoje tem uma empresa de consultoria na área de energia, da qual é diretor.

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